sexta-feira, 3 de julho de 2015

Do aborto e das injustiças

Ultimamente têm-se falado muito da interrupção voluntária da gravidez e sobre se deve ser gratuita ou não e da obrigatoriedade de por as grávidas a assinar as ecografias.

Sempre fui pela despenalização do aborto e no referendo fiz campanha pelo sim porque acredito que cada mulher deve ter direito a escolher aquilo que quer fazer com a sua vida e com o seu corpo e não pode ser uma lei assinada por quem não sabe nada da história de vida dessa mulher a decidir se ela pode ou não interromper uma gravidez que não deseja ou que, pelos mais diversos motivos, não pode levar adiante.

Ou seja, sou uma defensora absoluta da liberdade da mulher. Nenhuma mulher deve ser obrigada a olhar para uma ecografia de um feto antes de interromper a gravidez porque acredito que ninguém faz um aborto de ânimo leve. Acredito que deve ser uma decisão muito complicada e que mexe a todos os níveis com os sentimentos da mulher. E também acho que uma IVG, assim como todos os atos médicos devem ser gratuitos e comparticipados pelo SNS. Acredito e defendo tudo isto, mas depois entra a minha história pessoal…

Antes de a minha filha nascer debati-me durante vários anos com a infertilidade. Aparentemente não havia nada de errado connosco. Aquilo a que se chama infertilidade inexplicada. Como não queríamos esperar muito tempo para iniciarmos os tratamentos optámos por avançar para uma clínica privada e para um reputado especialista em infertilidade a quem alguns dos nossos amigos já tinham recorrido. Para além das consultas das ecografias e da medicação, cada Inseminação intrauterina custava 500 euros. Fizemos três, sem sucesso. Enquanto aguardávamos para iniciar as FIV engravidei espontaneamente.

Hoje a minha filha tem 4 anos e de há dois anos para cá que nos debatemos novamente com o mesmo problema. Só que desta vez não nos é dada sequer a possibilidade de recorrermos ao sistema nacional de saúde porque, segundo eles, já temos uma filha, a lista de espera é muito grande e portanto temos que dar oportunidade a quem ainda não tem filhos. Neste momento o sistema privado está fora de questão.

E se eu quisesse abortar, também tinha lista de espera? Também me recusavam o segundo aborto porque já tinha feito um? Também tinha de pagar pelos comprimidos para abortar, como se paga pelas injeções hormonais para engravidar?

É isto que me tira do sério. Num país em que a taxa de natalidade está pelas ruas da amargura dão-se, e bem, todos os direitos a quem quer abortar e quem quer ter um filho tem que andar a sofrer de lista de espera em lista de espera e a pagar do seu bolso deslocações, medicação e tudo o mais que for preciso.

Não sou contra o aborto nem contra a sua gratuitidade, apenas sou contra que não deem a quem quer ter um filho e não consegue as mesmas oportunidades que quem quer ou precisa abortar tem.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Linhas

tenho uma amiga a passar por um divórcio traumático. Ontem, no dia em que assinou os papéis do divórcio, enquanto falava com ela, à meia luz, via-lhe no rosto as linhas que nos últimos tempos se formaram e pensei que estamos  a ficar velhas. Ou talvez velhas não seja a expressão adequada. Já passou muita vida por nós, já passámos por muito juntas. ela é a minha amiga de infância, desde os sete anos, desde que me conheço por gente. Ela já me permitiu ajuda-la.
Eu, pelo contrário, nunca lhe permiti ajudar-me!
É certo que nunca passei por um divórcio e espero nunca passar. Mas tenho passado alguma coisa e nunca me permiti receber ajuda. De ninguém. culpo-me por isso.

A verdade é que me culpo por tudo. E me desculpo por tudo.

Estou a tentar melhorar. Abrir-me mais. Dizer aquilo que sinto e não guardar para mim. Dar mais para receber mais. Porque se eu não dou não posse esperar receber em troca. e há coisas que se não sou eu ajudar-me, ninguém me pode ajudar, porque ninguém sabe. ou melhor, presumem, mas como eu não falo sobre isso, mais ninguém fala e assim se cria um muro, uma barreira que não quebra e não cai porque eu não permito.

gostava de escrever para ver se a escrita me ajuda a entender-me melhor, porque falar não é o meu forte. Quero ser uma pessoa melhor.

A vinha vida não é desgraça nenhuma. Tenho tantas coisas boas na minha vida. a melhor delas, está aqui numa fotografia a olhar e a sorrir para mim. E é por ela que quero ser melhor, mais feliz....